Eu nasci há meio século atrás




Eu nasci há meio século atrás

Num sábado de Zé Pereira

Brinquei de girar em cima de uma enceradeira.

Mandei e recebi telegrama de Boas Festas.

Fazia cartões de Natal com cartolina e 

escrevia as mensagens à mão.

Eu tive telefone com fio

que com o dedo girava o disco

e ouvia o tu, tu, tu.

Fiz ligação à cobrar e também recebi.

Usei as fichas no orelhão e 

depois colecionei os cartões de telefone.

Fui na Telasa, fazer 

discagem direta à distância (DDD)

para outra cidade.

Vi a televisão de tubo, 

que precisava ajustar a antena

para não ficar chiando e chuviscando.

Tive uma vitrola, onde tocava os LPs

dos trapalhões, Dominó, Menudos.

Ganhei o compacto disco do Luiz Miguel

por quem me apaixonei.

Eu tenho um Sansão encardido

que minha irmã me deu.

Eu rebobinei fita cassete com uma caneta, 

gravei as traduções que tocavam na rádio,

fiquei revoltada com as propagandas 

no meio das gravações.

Assisti mais de três sessões seguidas

de ‘ET, o extraterrestre” no Cinema São Luiz.

Vi o cometa Halley passar.

Meu primeiro celular foi um Nokia,

que prometia ser indestrutível.

Andei de avião como “menor desacompanhada”

Tive uma máquina fotográfica LOVE,

que usava um cubo como flash.

Tirei muitas fotos, que foram reveladas, 

outras queimaram o negativo.

Usei máquina de datilografar e 

um mimeógrafo a álcool.

Vi a internet nascer.

Tive a internet discada, 

que demorava uma eternidade para

fazer o download de uma imagem.

Conversei pelo Orkut, MSN.

Tive e-mail do Yahoo.

Apresentei trabalho na faculdade 

com Retroprojetor e Transparências.

Eu vi a sequência do DNA ser descoberta.

Eu vi várias guerras, a fome, a seca.

Vi uma pandemia levar pessoas queridas.

Eu vivi de máscara, lavando sempre as mãos,

Borrifando álcool nos nossos sonhos e desejos.

Vivi a felicidade de ser vacinada

e não morrer sufocada.


Eu nasci há meio século atrás

Vi e vivi muitos momentos

alguns tristes, mas muitos 

cheios de alegria e felicidade.

Vi nascer tecnologias,
vi desaparecer costumes,
vi despedidas,
vi reencontros.

Carrego histórias que ninguém pode repetir,
porque foram vividas por mim.

E pretendo viver esta festa e cantar

Eu nasci há um século atras...


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